Quando hackers resolvem atacar supermercados e descobrem que também é possível fazer deploy no freezer.
Imagine chegar ao supermercado para comprar um sorvete e descobrir que ele está praticamente líquido.
Não foi falta de energia. Não foi defeito no compressor. Não foi o funcionário que esqueceu a porta aberta.
Segundo notícias recentes, sistemas de refrigeração de supermercados europeus foram alvo de ataques cibernéticos. Em um dos casos relatados na Suécia, a temperatura dos freezers disparou, chegando a aproximadamente 50 °C.
Sim, cinquenta graus.
Aparentemente, alguém descobriu que não precisa invadir o servidor da empresa para causar prejuízo. Basta encontrar o caminho até a geladeira.
E pensar que tudo começou com a promessa de uma geladeira inteligente.
Parabéns à Internet das Coisas. Agora até o freezer precisa de um firewall.
Sprint 1: Vamos conectar tudo à internet!
Product Manager:
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Precisamos modernizar os supermercados.
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Vamos conectar as geladeiras à internet!
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Assim conseguimos monitorar a temperatura remotamente.
Desenvolvedor:
- E a segurança?
Product Manager:
- Coloca uma senha.
Desenvolvedor:
- Qual senha?
Product Manager:
- Admin123. Depois a gente troca.
Desenvolvedor:
- E se alguém acessar o sistema?
Product Manager:
- Impossível. Quem iria querer hackear uma geladeira?
É assim que nasce mais um projeto Go Horse.
O importante é entregar a funcionalidade. Segurança, monitoramento e controle de acesso podem entrar no próximo ciclo.
Deploy direto no freezer
No método Go Horse, temos algumas regras fundamentais:
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Se funciona na sua máquina, funciona em produção.
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Se não funciona, reinicie.
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Se continuar sem funcionar, coloque a culpa na infraestrutura.
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Se alguém encontrar uma vulnerabilidade, abra um ticket.
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Se o ticket não tiver prioridade, deixe para a próxima sprint.
Só esqueceram de um detalhe.
O ambiente de produção agora é uma geladeira cheia de alimentos perecíveis.
E alguém conseguiu alterar sua temperatura remotamente.
O resultado? Prejuízo, alimentos comprometidos e pessoas que podem ficar sem produtos que estavam disponíveis para consumo.
Tudo isso porque alguém achou que segurança era um detalhe opcional.
Hackearam a geladeira. E o que ganharam com isso?
Aqui está a parte que realmente incomoda.
Atacar sistemas de refrigeração para estragar alimentos não é demonstração de inteligência. É irresponsabilidade.
Enquanto alguém comemora ter conseguido invadir um sistema, toneladas de alimentos podem acabar no lixo.
Existe uma diferença enorme entre encontrar uma vulnerabilidade, demonstrar que ela existe e explorar essa falha para provocar prejuízo.
Segurança da informação não deveria ser uma competição para descobrir quem consegue causar o maior estrago.
Se a sua demonstração de habilidade precisa destruir comida para provar alguma coisa, talvez o problema não esteja na geladeira.
Onde estava o DevOps?
Vamos olhar para o problema do ponto de vista da engenharia.
Uma infraestrutura minimamente bem planejada deveria considerar:
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Segurança: controle de acesso, autenticação forte e atualização dos dispositivos.
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Monitoramento: alertas quando a temperatura ultrapassar limites seguros.
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Segmentação de rede: a geladeira não precisa ter acesso irrestrito à rede corporativa.
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Auditoria: saber quem alterou configurações e quando.
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Plano de contingência: procedimentos para agir rapidamente diante de uma falha.
E, principalmente, não confiar cegamente em um sistema conectado à internet para controlar algo tão importante quanto a conservação de alimentos.
Mas isso exige planejamento.
E planejamento é aquela atividade que o Go Horse costuma considerar uma perda de tempo.
O retrospecto da Sprint
Depois do incidente, a equipe se reúne para entender o que aconteceu.
Gerente: Quem autorizou o acesso remoto?
Desenvolvedor: Estava configurado desde a implantação.
Gerente: E a senha?
Desenvolvedor: Era a padrão do fabricante.
Gerente: E o monitoramento?
Desenvolvedor: Estava funcionando.
Gerente: Então por que ninguém percebeu?
Desenvolvedor: O alerta estava configurado para enviar um e-mail.
Gerente: E quem recebeu?
Desenvolvedor: O funcionário que saiu da empresa há dois anos.
Silêncio.
Alguém finalmente pergunta:
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Temos backup?
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Temos.
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Do quê?
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Da configuração da geladeira.
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E dos alimentos?
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Aí já não temos.
A verdadeira temperatura do Go Horse
A Internet das Coisas trouxe possibilidades incríveis. Geladeiras inteligentes, sensores, automação e monitoramento remoto podem ajudar empresas a reduzir custos e evitar desperdícios.
Mas conectar um equipamento à internet também significa assumir responsabilidades.
Não adianta ter inteligência artificial, dashboard colorido e monitoramento em tempo real se qualquer pessoa consegue alterar a temperatura de um freezer.
O problema não é a tecnologia.
É a velha mania de colocar alguma coisa em produção sem pensar no que pode acontecer depois.
E, nesse caso, o preço da gambiarra não foi apenas uma aplicação fora do ar.
Foram alimentos desperdiçados, prejuízos e recursos que poderiam alimentar pessoas.
Conclusão: Não seja esse tipo de Go Horse
O método Go Horse sempre teve suas histórias absurdas.
Mas existe uma diferença entre uma gambiarra em um ambiente de desenvolvimento e uma irresponsabilidade que afeta pessoas de verdade.
Podemos rir do desenvolvedor que colocou a senha 123456, do gerente que dispensou os testes e do sistema que ninguém sabe como funciona.
Mas não podemos normalizar ataques que provocam desperdício de alimentos.
Hackear uma geladeira não é evolução tecnológica. É só uma maneira muito cara de estragar comida.
E para fechar, fica a recomendação:
Antes de colocar sua geladeira em produção, faça pelo menos um teste de temperatura.
E, pelo amor de Deus, configure o firewall.
🐴 Extreme Go Horse.
Se funciona na sua máquina, talvez não funcione no freezer.


